Considerações sobre a Astrologia: uma linguagem essencial da consciência na transformação e nas crises.
"O Dharma só pode ser realizado quando é feito um esforço unidirecionado, consciente e voluntário, para atender e neutralizar o karma que determinou o estado de partida para o processo de transformação" ( Rudhyar, 1980)
Fortaleza, dia chuvoso, noite de Lua cheia, de transbordamentos para firmar a minha cura da coluna, pois o trabalho biomédico já foi realizado e o espiritual começou nas graças da jurema.
Um cheiro de rosas me banhou na sala do hospital e o olhar da curandeira, silencioso, dissipou o medo, transformação pelo auto perdão. "Não se preocupe, tudo que há é a luz em ação". E Saturno como símbolo do tempo, limpou e trouxe o resultado de um trabalho realizado sobre mim mesma. " Eis a luz em todo seu esplendor, antes da separação".
Muitas revelações internas e uma necessidade de escrever serpenteando, comunicar, já que a dança precisará de um tempo de pausa. Será? Penso na magia de usar com maestria a autorregulaçao e me vejo com a maraca na mão, a caminhar com sutileza nesta vida. Serpentear envolve um refinamento da consciência, desvelada no movimentar e para isso a vida vai retirando os véus da ilusão.
Neste mergulho para dentro, que é a escrita dhármica, o movimento em espiral desce ao fundo, para que a expressão seja certeira. Quero dançar com as palavras, que essa expressão seja ciência e poesia. Que traga lucidez para quem busca o saber, não palavras soltas ao vento.
Nós todos temos níveis de consciência e percepções diferentes. Não se pode negar que operamos em diferentes níveis de desenvolvimento emocional, mental, espiritual e a beleza é esta tessitura de distintas formas de individualidades com humildade e respeito a cada ser.
O astrólogo não vê os indivíduos como entidades distintas e isoladas, e sim como identidades que são manifestações diferentes da consciência universal única e imutável.
Apesar de as circunstâncias externas de suas vidas serem totalmente diferentes daquelas do homem antigo, nas florestas ou desertos, ainda podemos encontrar homens inconscientes que parecem evoluídos e civilizados, e vemos isto com as guerras que seguem se repetindo era após era, agora mesmo na faixa de Gaza.
Havia prometido aos meus leitores continuar a escrever sobre a saga de Saturno, apresentando-lhes aspectos mais práticos da interpretação, como a sua expressão em signos e casas e o farei, pois mergulhar na ambivalência simbólica e tentar caçar palavras para nomear Saturno através dos labirintos do inconsciente me leva a um caminho de ressignificação e contemplação interior.
Todavia, neste mergulho, quero lhes trazer uma experiência subjetiva e também genérica sobre aminha concepção astrológica de interpretação. Nos tornamos alquimistas ao nos debruçarmos sobre Saturno, com seu dinamismo lento e implacável sobre mapas, fenômenos e experiências. Me sinto amadurecida, criando estruturas, a cada vivência.
Antes, vamos deixar claro, que outro ouro também pode ser extraído de Saturno. O REINADO DE CRONOS É O EU REAL NUM TEMPO ONDE O TEMPO JÁ NÃO TEM MAIS PODER, A HORA É ESTA , O PRESENTE.
A medida que um novo nível de consciência está sendo alcançado, não podemos evitar que ele seja acompanhado de um novo tipo de interpretação dos fatos celestes usados na astrologia. Ela também morre para o passado.
Gostaria de trazer a visão de Rudhyar, 1980, que apresenta uma abordagem transpessoal da astrologia, surgida com a nova forma de olhar o que podemos observar no céu, com instrumentos astronômicos complexos e nossas experiências humanas genéricas e individuais.
Queridos amigos, a Astrologia é sabedoria. Através do conhecimento dos ciclos adquirimos sabedoria, mas não me refiro as tolices que já perderam a fonte original difundidas artificialmente nas colunas de jornal, na internet.
Astrologia é uma das linguagens em busca da expressão da verdade do homem, de sua origem, natureza e destino, que se transforma ao longo do tempo. Na origem dos grandes problemas humanos, como os que se expressam nos pares de opostos liberdade-necessidade, determinismo-livre-arbítrio, que constituem também o cerne das preocupações do filósofo Adorno: a astrologia é procurada para oferecer respostas prontas. Uma noção chave que percorre todos esses sistemas de conhecimento é a de destino. O astrólogo não pode prever os acontecimentos futuros exatos da vida de um indivíduo, ninguém pode predizer exatamente eventos individuais.
Minha visão: a astrologia diz a você o que poderá se tornar realidade, mas não aquilo que irá acontecer.
Na minha concepção, o astrólogo é um especialista em valores estruturais referentes ao desenvolvimento da personalidade. Toda a situação de agora não tem significado profundo em termos do "eu individual " até que seja relacionada com a estrutura e desenvolvimento rítmico da vida inteira.
O presente é tudo que temos, apenas uma fase do tempo cíclico; ele só adquire significado quando é colocado dentro do contexto. Tudo então pode mudar o tempo todo.
Nós, ocidentais é que estamos sempre trabalhando na lógica da dualidade, se é ciência, não pode ser poesia, não expressa a verdade.
Astrologia é uma linguagem que muda através do tempo na busca da expressão da verdade. Ela nos auxilia a ampliar a consciência.
Mudando a qualidade de percepção pela autobservaçao, trazemos um aprofundamento pessoal a partir de uma interpretação de tem características genéricas. A consciência de cada um de nós é divina e indestrutível e a astrologia revela a jornada cuja dinâmica depende de nós: não somos peões do destino. Nós, astrólogos, vemos cada esfera planetária como centro de uma consciência especial.
Gostaria de trazer mais uma afirmação de Rudhyar. Para o autor, astrologia é uma tentativa bem sucedida de estabelecer uma complexa série de relações coerentes e confiáveis entre, de um lado, a movimentação das fontes de luz - Sol, Lua planetas e estrelas e de outro as séries observáveis de mudanças que ocorrem na biosfera e na vida dos seres humanos.
Neste sentido, sigo concordando com ele, concebo que o propósito da astrologia é usar as correlações para compreender a ordem repetitiva que pode ser observada nos processos de mudanças experimentados por todos os seres humanos viventes na biosfera e os significados que ocorrem durante esses processos de forma que os seres humanos possam aumentar sua capacidade de enfrentar as mudanças que experimentam e se beneficiar com elas.
Assim deveria ficar evidente que a astrologia pode tomar diferentes formas de acordo com o nível de consciência e o caráter geral das atividades principais dos seres humanos em busca da compreensão.
As experiências do homem tribal eram limitantes e definidas pelas fronteiras da terra onde viviam as comunidades primitivas e a qual o homem estava biológica e psicologicamente ligados. Por um lado, os fenômenos celestes que nossos antepassados podiam perceber a olho nu agora são entendidos e avaliados em relação a formações imensamente maiores, cuja fisicalidade se torna questionável, uma vez que a matéria é um estado especial de energia, por outro lado as mudanças que os seres humanos estão agora experimentando, não apenas individual, mas coletivamente e numa escala planetária, são de igual magnitude e cheia de oportunidades de crescimento.
Para quem não conhece nada de astrologia e caiu neste recanto netuniano é importante situar você que Ptolomeu sistematizou o sistema geocêntrico, descrevendo matematicamente os movimentos dos planetas como se a Terra estivesse parada no centro do Universo.
Numa perspectiva atualizada, a Astrologia e a Astronomia costumam ser vistas como totalmente distintas. A astronomia é vista como desenvolvido por cientistas e a Astrologia parece ser apenas uma superstição. No século XIX suspeitaram de que o astrônomo Ptolomeu era uma farsa. Nós astrólogos aprendemos de Ptolomeu em seus quatro livros (Tetrabiblos, quatro livros sobre a influência dos astros).
"Supõe-se erroneamente que a astrologia recebeu o sopro de morte quando Copérnico apresentou o que hoje é aceito como verdadeiro sistema do Universo, embora, como saiba qualquer estudioso de astrologia ela não foi nem poderia ser afetada pela revelação, já conhecida e ensinada por Pitágoras, de que Sol e terra era o centro do sistema sola, pois a Astrologia trata de posições relativas dos planetas, que podem ser determinadas pela observação, como faziam os antigos, não podendo, pois , ser afetadas por mudança nas teorias destinadas a explicá-las. "( Rudyar, 1980).
No entanto, sim, a teoria heliocêntrica trouxe muitas complicações para o modelo astrológico heliocêntrico. O céu mecanicista transformado num amplo relógio cósmico, só podia dizer aos seres humanos a hora, o tempo e em termos da doutrina da correspondência onde aconteceria no microcosmo, isto é, no indivíduo. Aconteceu uma inversão perigosa, o homem era sábio na medida em que governasse as estrelas. Somente após a conjunção de netuno e plutão em 1891, quinhentos anos depois da conjunção marcar os primórdios do humanismo e pré-renascença, com as teorias de Einstein, chegou-se a um modelo diferente do universo.
Para reestabelecermos a comunicação entre o homem e o universo o homem realmente precisa se sentir integrado e a astrologia precisa estar livre de um tipo ainda mais sofisticado e cientifico de novo enfoque, uma nova formulação implica novos símbolos e seguramente os elementos já existem , tudo é uma questão de interpretação com base em uma nova dimensão de consciência.
Você já pensou que este novo modo pode ser a lenta emergência de uma comunidade universal onde podemos inclusive, resgatar a astrologia da dualidade até que o modelo livre da dicotomia surja. Aqui confirmamos o que afirma Cardano no século XVI: a astrologia não é uma ciência matemática, mas sim hermenêutica.
O ASTRÓLOGO SÉRIO FORNECERÁ DE INÍCIO UMA INTERPRETAÇÃO BASTANTE GERAL, VOLTADA à SIMBOLOGIA ( SIGNO SOLAR, ascendente, etc) sem se fixar em manifestações concretas das forças de vida deste cliente.
Na consulta, junto com o cliente, será feita a busca por correspondências subjetivas, caso estas correspondências ou acontecimentos sejam encontradas, então o astrólogo prossegue com as interpretações, sempre do genérico ( técnica)para o particular.
Referências:
RUDHYAR, Dane. A Astrologia da Transformação. São Paulo:Editora Pensamento, 1980.
Leo, Alan. Saturno: o construtor de universos. São Paulo. Editora: Pensamento Ano: 1993
Kochu, Von Stuckad. História da astrologia: da antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Globo, 2007